(1a edição)
Muitas vezes me flagrei tentando entender o motivo pelo qual 2 pessoas igualmente inteligentes, cultas, bem-intencionadas e almejando o mesmo objetivo (premissas de igualdade 1 a 4) teriam divergências sobre determinado assunto. Partindo do princípio de que ambas teriam acesso às mesmas informações, seria de se supor que chegassem às mesmas conclusões, ou às mesmas "verdades pragmáticas" (ver postagem "Sobre a verdade..." de 29 de dezembro). Penso que as principais razões para a existência de divergências são as seguintes.
Em primeiro lugar, as premissas de igualdade 1 e 2 acima são utópicas, pois nunca haverá 2 pessoas com exatamente os mesmos mecanismos de raciocínio e a mesma cultura. Contudo, mesmo supondo que essas 2 premissas de igualdade fossem suficientemente verdadeiras a ponto de sustentar a questão proposta, penso que a principal determinante das divergências reside na inviabilidade das premissas 3 e 4, o que levaria a uma predominância da emoção sobre a razão.
Com relação a essas premissas (igualdade de intenções e objetivos), não sei inclusive se seria possível mensurar essa suposta igualdade com precisão, posto que as instâncias inconscientes que regem tanto intenções quanto objetivos são, muitas vezes, predominantes em relação às conscientes, o que os torna incognoscíveis até mesmo para seus próprios sujeitos.
Em outras palavras, estou levantando a hipótese de que, primeiro, nossa emoções e vontades inconscientes nos levariam a nossas conclusões e, apenas depois, usaríamos a lógica para elaborar a defesa de nossas teses. Assim sendo, ocorreria que, na maioria das vezes, faríamos certas concessões a nós mesmos para provar nossos pontos, ou melhor, "roubaríamos no jogo", mesmo que inconscientemente, através da inserção de pequenos sofismas em nossas construções lógicas.
Minha conclusão, portanto, é de que não há, em verdade, nesses casos, discordâncias lógicas, mas sim uma predominância da ignorância e, principalmente, das vontades inconscientes, sobre a lógica, seja de uma ou, geralmente, de ambas as partes.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Sobre os sentimentos... (Pensamentos)
(1a edição)
Para falar sobre os sentimentos, gostaria de fazer um gancho com a postagem "Sobre a felicidade...", de 28 de dezembro. Assim como a felicidade, acredito que todos os sentimentos são, ou melhor, podem vir a ser, uma opção da pessoa.
Segundo me parece, os sentimentos são originados na esfera mental (nos pensamentos), que por sua vez estimulam processos bioquímicos em nossos cérebros. Em outras palavras, nossos pensamentos têm o poder de desencadear a liberação de neurotransmissores em nossos organismos e, dessa forma, determinar como nos sentimos.
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Da mesma maneira que, se mentalizarmos um bebê, sentiremos ternura, se focarmos em nossos problemas, sentiremos apreensão, angústia, ou qualquer outro sentimento negativo. E, partindo do princípio de que somos senhores de nossos pensamentos, deveríamos ser também senhores de nossas emoções, mas não é isso que ocorre em nosso dia-a-dia... Por que será?
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A explicação é que, por algum motivo, seja por comodidade, por mero hábito, ou sabe-se lá, colocamos nossos cérebros "no modo automático", e reagimos com um padrão pré-estabelecido a cada situação que se nos apresenta. Por exemplo, se alguém nos xinga, ficamos irritados e com raiva, se alguém nos elogia, ficamos contentes, e assim por diante. Mas raciocinemos um pouco sobre a conveniência dessas respostas mentais padronizadas...
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Peguemos o exemplo do xingamento. Não é nenhum absurdo dizer que, num caso desses, temos todo o direito de ficar irritados, e que esse é um padrão aceitável socialmente. Contudo, nem tudo aquilo a que temos direito nos é benéfico... Temos, por exemplo, o direito de esmurrar uma parede chapiscada de cimento, mas não vejo como isso iria nos ajudar.
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Da mesma forma, ao focarmos nossos pensamentos na ofensa, geraremos descargas de neurotransmissores responsáveis pela agressividade. Esses hormônios acarretarão determinadas reações físicas que trarão diversos malefícios a nossa saúde. Entre os possíveis malefícios estão a pressão alta, dores de cabeça e uma infindável lista que todos conhecemos muito bem. Em outras palavras, com essa resposta emocional automática, além de sermos xingados, estaremos também, inadvertidamente, intoxicando nossos físicos... Vejo tanta vantagem nisso como em esmurrar a parede.
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Uma vez que identifiquemos essa estreita correlação entre pensamentos e sentimentos, estaremos prontos para a etapa mais interessante, qual seja: produzir voluntariamente nosso estado de espírito. Para isso, basta começarmos a praticar. Primeiramente, desautomatizando nossas reações, para que não nos deixemos contaminar pelo ambiente e, segundo, focando propositadamente em pensamentos positivos e agradáveis.
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Se fizermos isso, conseguiremos produzir e manter um estado quase permanente de felicidade. Mais uma vez usei como exemplo a felicidade, mas outros sentimentos também podem ser cultivados através do pensamento, basta querermos...
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Imagine there´s no countries... (Artigo)
(2a edição)
Conforme demonstrei em artigo intitulado “A Crise Mundial, o Padrão Dólar e a OMC”, postado nesse blog em 28/12/2008, a crise financeira mundial tem como elemento principal o represamento da liquidez internacional, oriunda dos superávits em conta corrente dos países emergentes, nos bancos americanos. Em função da falta de oportunidades de investimento no primeiro mundo, dada sua baixa competitividade internacional e conseqüente baixa taxa de crescimento, essa liquidez acabou sendo direcionada para o consumo das famílias americanas, o que resultou na supervalorização de bens de consumo nos EUA e, finalmente, na ruptura do sistema de financiamento desses bens.
Portanto, para que tenhamos uma solução estrutural e duradoura para essa questão, faz-se necessário que quebremos as travas que impedem que essa liquidez flua de volta para os emergentes, e, mais importante, que promovamos maior igualdade de competitividade entre países emergentes e desenvolvidos. Esses objetivos somente serão alcançados através de uma maior integração econômica mundial.
Nos parágrafos que se seguem tentarei discorrer sobre a tendência mundial de longo prazo à integração econômica, e sobre os três principais aspectos da questão, ou seja, liberdade comercial, de investimentos e de circulação de força de trabalho, suas vantagens, os interesses e preconceitos que giram em torno desses temas e os cuidados necessários para a sua adoção.
A Tendência Mundial à Integração Econômica
“Imagine there´s no countries...” Com essa licença poética começa a segunda parte da linda e mundialmente conhecida música de John Lennon... Ingenuidade de um músico pacifista ou sabedoria de um grande líder político? Bem, a resposta a essa pergunta depende basicamente do horizonte histórico em questão.
Se voltarmos no tempo pouco mais de 60 anos, veremos que, em 1945, terminava mais uma das inúmeras guerras travadas entre nações européias durante séculos, o que levaria um observador sensato a deduzir que os conflitos continuariam indefinidamente, com uma e outra nação obtendo sucessivamente a hegemonia da região. Mas sucedeu exatamente o contrário, e o continente viu, em 1992, a criação sem precedentes de uma área de livre comércio e circulação de capitais e pessoas.
Ora, se essa integração se deu no belicoso continente europeu, pode-se com propriedade cogitar que o mesmo possa vir a ocorrer em escala mundial, ficando pendente a questão: em quanto tempo? Essa tendência é também evidenciada por iniciativas mais tímidas como o Mercosul, o Nafta, etc., assim como pela trajetória de crescimento em importância e representatividade de organismos mundiais como, por exemplo, a OMC. Mas o que explicaria essa tendência mundial à integração econômica, e, embora ela seja benéfica à humanidade, por que os países relutam tanto em adotá-la?
O Livre Comércio
Quanto ao livre comércio, o eminente economista inglês, David Ricardo, em seu livro Principles of Political Economy and Taxation (1817), elaborou a brilhante e revolucionária Teoria das Vantagens Comparativas, e, com bastante simplicidade, demonstrou que a Inglaterra teria vantagens se importasse vinho de Portugal, ao invés de produzi-lo, e que Portugal teria vantagens se importasse tecido da Inglaterra, ao invés de produzi-lo. O motivo? Como cada país era mais eficiente na produção de um dos itens, e levando-se em conta que a força de trabalho e o capital são recursos limitados, se cada país empregasse esses recursos exclusivamente na produção daquilo em que era mais eficiente, o resultado seria uma produção global de mais vinho e de mais tecido, que poderiam então ser trocados. Em outras palavras, num mundo simplificado, onde só existissem esses dois produtos e esses dois países, a especialização aumentaria o PIB mundial.
Analogamente, em se tratando do mundo real, a especialização dos países na produção daquilo em que são mais competitivos, seja por detenção de know-how, seja pela presença de recursos naturais, ou por qualquer outro motivo, sem dúvida também aumentaria o PIB mundial e, consequentemente, a riqueza de seus habitantes. Todavia, para que essa especialização possa ocorrer, e para que seus benefícios possam ser sentidos, faz-se necessária uma queda radical de todas as formas de barreiras comerciais, sejam elas tarifárias ou não-tarifárias.
Os críticos do livre comércio quase sempre se mascaram de defensores dos interesses nacionais. Dizem visar proteger as empresas e os trabalhadores de seus países contra a concorrência “desleal” de outros países. Mas quem está sendo realmente poupado são os interesses egoístas de alguns segmentos econômicos, e não os trabalhadores ou a classe empresarial como um todo.
No caso do empresariado, sabemos que o capital é migratório e está sempre em busca de oportunidades... Dessa forma, se determinado segmento econômico passa a ser pouco competitivo em determinado país, há sempre duas alternativas ao capitalista: mover seus negócios para outro país onde esse segmento seja rentável, ou mudar de atividade. No que diz respeito aos trabalhadores, desde que o capital esteja livre para migrar, haverá sempre novos postos de trabalho sendo criados, pois, da mesma maneira que empresas irão embora em busca de rentabilidade, outras, atuantes em outros segmentos, virão se instalar no país pelo mesmo motivo. Por fim, além de empresários e trabalhadores, em última instância, somos todos consumidores, e a verdade dos fatos salta aos olhos: enquanto o brasileiro come churrasco, mas sofre para pagar a prestação do carro, o americano paga 2,5 vezes menos por um carro de categoria equivalente, mas come hambúrguer.
Outra crítica comum baseia-se no argumento de que é necessário defender a balança comercial do país. Realmente, a solvência internacional é requisito fundamental para a sustentabilidade do desenvolvimento econômico, contudo, a livre flutuação cambial desempenha um papel regulador importante, aumentando a competitividade de países comercialmente deficitários via desvalorização de suas moedas. Ademais, a livre circulação de capitais também concorre para a solução do problema, principalmente em casos agudos, possibilitando influxo temporário de poupança externa.
Com os argumentos acima, entretanto, não estou negando que essa transição seria potencialmente traumática para determinados setores econômicos e classes trabalhadoras, mas expondo que os benefícios para o todo superariam os prejuízos eventualmente impostos a alguns. Ademais, esses prejuízos poderiam ser bastante atenuados com recursos advindos do próprio processo de abertura, e do conseqüente crescimento do PIB mundial. Uma maneira eficiente de fazê-lo seria a apropriação, pelo estado, de parte da riqueza extra gerada, através de uma taxação uniforme do comércio internacional, e da aplicação desses recursos no reposicionamento geográfico de empresas e na reciclagem da força de trabalho. Também seria interessante o financiamento de eventuais déficits em conta corrente de países mais vulneráveis à concorrência externa por algum organismo multilateral, a ser também financiado por esse excedente de riqueza.
A Livre Circulação de Capitais
Primeiramente, conforme ficou demonstrado no tópico acima, o livre comércio somente será viável se for acompanhado pela mobilidade do capital, pois essa mobilidade permitirá que as empresas se re-posicionem geograficamente com base na rentabilidade de cada segmento em cada país.
Além disso, ela possibilita que os rompantes de dinamismo econômico de cada país sejam aproveitados ao máximo, em prol de toda a humanidade. Ou seja, toda vez que um determinado país, através de alguma inovação tecnológica, consegue suplantar seus concorrentes no mercado mundial, conforme ficou demonstrado acima, toda a população mundial é direta ou indiretamente beneficiada, posto que o PIB mundial cresce. Contudo, para que os benefícios dessa inovação sejam maximizados, é mister que haja capital para viabilizar os investimentos necessários. Uma vez que essa nova infra-estrutura teria como beneficiário o mercado mundial, não é necessário ser economista para entender que, em função do montante de recursos necessários, muitas vezes um único país não terá capital suficiente para financiá-la, e que os investimentos deverão vir de fora.
A livre circulação de capitais consiste na livre entrada e saída de capitais de um determinado país, o que implica garantia de conversibilidade frente ao dólar, a equiparação das regras que regem esses fluxos, tais como taxação, ausência de prazos mínimos de permanência, e a ausência de restrições quanto à aplicação dos recursos internalizados.
As principais críticas relativas a esse tema são: (i) as remessas de lucros, através das quais os países ricos explorariam os países pobres; (ii) o influxo de capital especulativo nos países emergentes, que se aproveitaria de oportunidades como altas taxas de juros e ativos baratos em bolsa, mas que sairiam do país ao primeiro sinal de crise, criando flutuações perigosas na taxa de câmbio e nas reservas cambiais; (iii) a segurança nacional, em nome da qual, determinados segmentos econômicos deveriam ser vedados a investimentos estrangeiros. Contudo, mais uma vez, demonstrarei que esses argumentos são sofismáticos.
Quanto às remessas de lucros, quero frisar que o capital não tem pátria, ou seja, desde que seja observado o requisito da livre circulação, o capital migrará sempre para os locais onde houver maior rentabilidade. Dessa forma, se um capitalista americano tem lucros no Brasil, através de ações de uma empresa brasileira qualquer, esses lucros somente serão remetidos para os EUA, no caso de haver, naquele país, oportunidades de retorno melhores que aquelas disponíveis para re-investimento desses lucros aqui no Brasil. Se, pelo contrário, houver boas oportunidades por aqui, não só esses lucros permanecerão aqui, como também mais capital será enviado, com vistas a aproveitar essas oportunidades.
Quanto ao capital especulativo, trata-se de um grande mal-entendido. Ora, se há, em determinado país, uma taxa de juros muito elevada para os padrões internacionais, é sinal que há, na estrutura financeira desse país, uma distorção a ser corrigida. No caso do Brasil, essa distorção seria a dívida pública interna. A entrada do capital externo apenas ameniza a situação, pois provê liquidez ao sistema. Baixando-se a dívida pública, poder-se-ia diminuir as taxas de juros para patamares internacionais. Com relação à questão da fuga de capitais em tempos de crise, vale ressaltar que o capital nacional também costuma evadir nesses momentos, causando os mesmos efeitos nefastos.
Vale ainda ressaltar que a adoção de um padrão monetário mais diversificado, vis-à-vis o padrão dólar, seria uma medida necessária para viabilizar uma eficácia total da livre circulação de capitais. A exemplo do que ocorre na zona do Euro, uma moeda única, ou uma cesta de moedas mais ampla, ajudam a reduzir os efeitos negativos da volatilidade das reservas internacionais dos países em geral.
Finalmente, a balela da segurança nacional. Uma vez que todo e qualquer investimento estrangeiro pode ser nacionalizado em caso de guerra, não vejo de que forma o fato de a propriedade de determinados ativos ser estrangeira poderia causar vulnerabilidade a determinado país...
A Livre Circulação de Força de Trabalho
Resta a questão da liberdade de circulação de pessoas, ou melhor, da livre circulação de força de trabalho entre os diversos países. Os benefícios dessa mobilidade são inúmeros.
Por um lado, sempre que há um crescimento dos investimentos num determinado país, há também uma maior demanda por mão de obra, o que acaba por encarecê-la. Esse encarecimento, por sua vez, tem por resultado a diminuição da competitividade internacional desse país, que gerou, em primeira instância, esse aumento nos investimentos. Dessa forma, há então uma retração nos investimentos, impedindo que os efeitos benéficos durem mais tempo. Assim sendo, ao se possibilitar que a força de trabalho migre em busca de oportunidades de emprego, não se está beneficiando somente os migrantes, mas também a economia global, pois está-se viabilizando que a vantagem competitiva de um país seja mantida e, consequentemente, que a população mundial seja beneficiada por pela continuação dessa vantagem.
A principal crítica à livre circulação de força de trabalho é que se estaria assim transferindo os problemas da falta de oportunidades de trabalho para os países ricos, agravando o já preocupante quadro derivado das baixas taxas de crescimento do primeiro mundo. Contudo, vejamos por que esse argumento não se sustenta.Primeiro, o aumento no PIB mundial, gerado por essa circulação de pessoas (ver explicação acima), aumentaria o dinamismo da economia mundial, o que abriria espaço para um aumento marginal significativo dos postos de trabalho no mundo como um todo. Segundo, os trabalhadores dos países ricos teriam também a possibilidade de migrar para outros países, onde há carência de mão-de-obra mais capacitada.Finalmente, ao se permitir que os trabalhadores migrem em busca de oportunidades de emprego, haverá necessariamente uma diminuição de trabalhadores disponíveis nos países de mão-de-obra mais barata. Essa diminuição da força de trabalho encarecerá a mão-de-obra nesses países, reduzindo os efeitos do chamado dumping social, e aumentando a competitividade aos países ricos. Esse aumento de competitividade seria necessariamente acompanhado de um aquecimento no mercado de trabalho.
Por fim, vale ressaltar que esse intercâmbio cultural seria não só salutar para a economia, como também contribuiria imensamente para um convívio mais harmônico entre os povos do planeta.
Conforme demonstrei em artigo intitulado “A Crise Mundial, o Padrão Dólar e a OMC”, postado nesse blog em 28/12/2008, a crise financeira mundial tem como elemento principal o represamento da liquidez internacional, oriunda dos superávits em conta corrente dos países emergentes, nos bancos americanos. Em função da falta de oportunidades de investimento no primeiro mundo, dada sua baixa competitividade internacional e conseqüente baixa taxa de crescimento, essa liquidez acabou sendo direcionada para o consumo das famílias americanas, o que resultou na supervalorização de bens de consumo nos EUA e, finalmente, na ruptura do sistema de financiamento desses bens.
Portanto, para que tenhamos uma solução estrutural e duradoura para essa questão, faz-se necessário que quebremos as travas que impedem que essa liquidez flua de volta para os emergentes, e, mais importante, que promovamos maior igualdade de competitividade entre países emergentes e desenvolvidos. Esses objetivos somente serão alcançados através de uma maior integração econômica mundial.
Nos parágrafos que se seguem tentarei discorrer sobre a tendência mundial de longo prazo à integração econômica, e sobre os três principais aspectos da questão, ou seja, liberdade comercial, de investimentos e de circulação de força de trabalho, suas vantagens, os interesses e preconceitos que giram em torno desses temas e os cuidados necessários para a sua adoção.
A Tendência Mundial à Integração Econômica
“Imagine there´s no countries...” Com essa licença poética começa a segunda parte da linda e mundialmente conhecida música de John Lennon... Ingenuidade de um músico pacifista ou sabedoria de um grande líder político? Bem, a resposta a essa pergunta depende basicamente do horizonte histórico em questão.
Se voltarmos no tempo pouco mais de 60 anos, veremos que, em 1945, terminava mais uma das inúmeras guerras travadas entre nações européias durante séculos, o que levaria um observador sensato a deduzir que os conflitos continuariam indefinidamente, com uma e outra nação obtendo sucessivamente a hegemonia da região. Mas sucedeu exatamente o contrário, e o continente viu, em 1992, a criação sem precedentes de uma área de livre comércio e circulação de capitais e pessoas.
Ora, se essa integração se deu no belicoso continente europeu, pode-se com propriedade cogitar que o mesmo possa vir a ocorrer em escala mundial, ficando pendente a questão: em quanto tempo? Essa tendência é também evidenciada por iniciativas mais tímidas como o Mercosul, o Nafta, etc., assim como pela trajetória de crescimento em importância e representatividade de organismos mundiais como, por exemplo, a OMC. Mas o que explicaria essa tendência mundial à integração econômica, e, embora ela seja benéfica à humanidade, por que os países relutam tanto em adotá-la?
O Livre Comércio
Quanto ao livre comércio, o eminente economista inglês, David Ricardo, em seu livro Principles of Political Economy and Taxation (1817), elaborou a brilhante e revolucionária Teoria das Vantagens Comparativas, e, com bastante simplicidade, demonstrou que a Inglaterra teria vantagens se importasse vinho de Portugal, ao invés de produzi-lo, e que Portugal teria vantagens se importasse tecido da Inglaterra, ao invés de produzi-lo. O motivo? Como cada país era mais eficiente na produção de um dos itens, e levando-se em conta que a força de trabalho e o capital são recursos limitados, se cada país empregasse esses recursos exclusivamente na produção daquilo em que era mais eficiente, o resultado seria uma produção global de mais vinho e de mais tecido, que poderiam então ser trocados. Em outras palavras, num mundo simplificado, onde só existissem esses dois produtos e esses dois países, a especialização aumentaria o PIB mundial.
Analogamente, em se tratando do mundo real, a especialização dos países na produção daquilo em que são mais competitivos, seja por detenção de know-how, seja pela presença de recursos naturais, ou por qualquer outro motivo, sem dúvida também aumentaria o PIB mundial e, consequentemente, a riqueza de seus habitantes. Todavia, para que essa especialização possa ocorrer, e para que seus benefícios possam ser sentidos, faz-se necessária uma queda radical de todas as formas de barreiras comerciais, sejam elas tarifárias ou não-tarifárias.
Os críticos do livre comércio quase sempre se mascaram de defensores dos interesses nacionais. Dizem visar proteger as empresas e os trabalhadores de seus países contra a concorrência “desleal” de outros países. Mas quem está sendo realmente poupado são os interesses egoístas de alguns segmentos econômicos, e não os trabalhadores ou a classe empresarial como um todo.
No caso do empresariado, sabemos que o capital é migratório e está sempre em busca de oportunidades... Dessa forma, se determinado segmento econômico passa a ser pouco competitivo em determinado país, há sempre duas alternativas ao capitalista: mover seus negócios para outro país onde esse segmento seja rentável, ou mudar de atividade. No que diz respeito aos trabalhadores, desde que o capital esteja livre para migrar, haverá sempre novos postos de trabalho sendo criados, pois, da mesma maneira que empresas irão embora em busca de rentabilidade, outras, atuantes em outros segmentos, virão se instalar no país pelo mesmo motivo. Por fim, além de empresários e trabalhadores, em última instância, somos todos consumidores, e a verdade dos fatos salta aos olhos: enquanto o brasileiro come churrasco, mas sofre para pagar a prestação do carro, o americano paga 2,5 vezes menos por um carro de categoria equivalente, mas come hambúrguer.
Outra crítica comum baseia-se no argumento de que é necessário defender a balança comercial do país. Realmente, a solvência internacional é requisito fundamental para a sustentabilidade do desenvolvimento econômico, contudo, a livre flutuação cambial desempenha um papel regulador importante, aumentando a competitividade de países comercialmente deficitários via desvalorização de suas moedas. Ademais, a livre circulação de capitais também concorre para a solução do problema, principalmente em casos agudos, possibilitando influxo temporário de poupança externa.
Com os argumentos acima, entretanto, não estou negando que essa transição seria potencialmente traumática para determinados setores econômicos e classes trabalhadoras, mas expondo que os benefícios para o todo superariam os prejuízos eventualmente impostos a alguns. Ademais, esses prejuízos poderiam ser bastante atenuados com recursos advindos do próprio processo de abertura, e do conseqüente crescimento do PIB mundial. Uma maneira eficiente de fazê-lo seria a apropriação, pelo estado, de parte da riqueza extra gerada, através de uma taxação uniforme do comércio internacional, e da aplicação desses recursos no reposicionamento geográfico de empresas e na reciclagem da força de trabalho. Também seria interessante o financiamento de eventuais déficits em conta corrente de países mais vulneráveis à concorrência externa por algum organismo multilateral, a ser também financiado por esse excedente de riqueza.
A Livre Circulação de Capitais
Primeiramente, conforme ficou demonstrado no tópico acima, o livre comércio somente será viável se for acompanhado pela mobilidade do capital, pois essa mobilidade permitirá que as empresas se re-posicionem geograficamente com base na rentabilidade de cada segmento em cada país.
Além disso, ela possibilita que os rompantes de dinamismo econômico de cada país sejam aproveitados ao máximo, em prol de toda a humanidade. Ou seja, toda vez que um determinado país, através de alguma inovação tecnológica, consegue suplantar seus concorrentes no mercado mundial, conforme ficou demonstrado acima, toda a população mundial é direta ou indiretamente beneficiada, posto que o PIB mundial cresce. Contudo, para que os benefícios dessa inovação sejam maximizados, é mister que haja capital para viabilizar os investimentos necessários. Uma vez que essa nova infra-estrutura teria como beneficiário o mercado mundial, não é necessário ser economista para entender que, em função do montante de recursos necessários, muitas vezes um único país não terá capital suficiente para financiá-la, e que os investimentos deverão vir de fora.
A livre circulação de capitais consiste na livre entrada e saída de capitais de um determinado país, o que implica garantia de conversibilidade frente ao dólar, a equiparação das regras que regem esses fluxos, tais como taxação, ausência de prazos mínimos de permanência, e a ausência de restrições quanto à aplicação dos recursos internalizados.
As principais críticas relativas a esse tema são: (i) as remessas de lucros, através das quais os países ricos explorariam os países pobres; (ii) o influxo de capital especulativo nos países emergentes, que se aproveitaria de oportunidades como altas taxas de juros e ativos baratos em bolsa, mas que sairiam do país ao primeiro sinal de crise, criando flutuações perigosas na taxa de câmbio e nas reservas cambiais; (iii) a segurança nacional, em nome da qual, determinados segmentos econômicos deveriam ser vedados a investimentos estrangeiros. Contudo, mais uma vez, demonstrarei que esses argumentos são sofismáticos.
Quanto às remessas de lucros, quero frisar que o capital não tem pátria, ou seja, desde que seja observado o requisito da livre circulação, o capital migrará sempre para os locais onde houver maior rentabilidade. Dessa forma, se um capitalista americano tem lucros no Brasil, através de ações de uma empresa brasileira qualquer, esses lucros somente serão remetidos para os EUA, no caso de haver, naquele país, oportunidades de retorno melhores que aquelas disponíveis para re-investimento desses lucros aqui no Brasil. Se, pelo contrário, houver boas oportunidades por aqui, não só esses lucros permanecerão aqui, como também mais capital será enviado, com vistas a aproveitar essas oportunidades.
Quanto ao capital especulativo, trata-se de um grande mal-entendido. Ora, se há, em determinado país, uma taxa de juros muito elevada para os padrões internacionais, é sinal que há, na estrutura financeira desse país, uma distorção a ser corrigida. No caso do Brasil, essa distorção seria a dívida pública interna. A entrada do capital externo apenas ameniza a situação, pois provê liquidez ao sistema. Baixando-se a dívida pública, poder-se-ia diminuir as taxas de juros para patamares internacionais. Com relação à questão da fuga de capitais em tempos de crise, vale ressaltar que o capital nacional também costuma evadir nesses momentos, causando os mesmos efeitos nefastos.
Vale ainda ressaltar que a adoção de um padrão monetário mais diversificado, vis-à-vis o padrão dólar, seria uma medida necessária para viabilizar uma eficácia total da livre circulação de capitais. A exemplo do que ocorre na zona do Euro, uma moeda única, ou uma cesta de moedas mais ampla, ajudam a reduzir os efeitos negativos da volatilidade das reservas internacionais dos países em geral.
Finalmente, a balela da segurança nacional. Uma vez que todo e qualquer investimento estrangeiro pode ser nacionalizado em caso de guerra, não vejo de que forma o fato de a propriedade de determinados ativos ser estrangeira poderia causar vulnerabilidade a determinado país...
A Livre Circulação de Força de Trabalho
Resta a questão da liberdade de circulação de pessoas, ou melhor, da livre circulação de força de trabalho entre os diversos países. Os benefícios dessa mobilidade são inúmeros.
Por um lado, sempre que há um crescimento dos investimentos num determinado país, há também uma maior demanda por mão de obra, o que acaba por encarecê-la. Esse encarecimento, por sua vez, tem por resultado a diminuição da competitividade internacional desse país, que gerou, em primeira instância, esse aumento nos investimentos. Dessa forma, há então uma retração nos investimentos, impedindo que os efeitos benéficos durem mais tempo. Assim sendo, ao se possibilitar que a força de trabalho migre em busca de oportunidades de emprego, não se está beneficiando somente os migrantes, mas também a economia global, pois está-se viabilizando que a vantagem competitiva de um país seja mantida e, consequentemente, que a população mundial seja beneficiada por pela continuação dessa vantagem.
A principal crítica à livre circulação de força de trabalho é que se estaria assim transferindo os problemas da falta de oportunidades de trabalho para os países ricos, agravando o já preocupante quadro derivado das baixas taxas de crescimento do primeiro mundo. Contudo, vejamos por que esse argumento não se sustenta.Primeiro, o aumento no PIB mundial, gerado por essa circulação de pessoas (ver explicação acima), aumentaria o dinamismo da economia mundial, o que abriria espaço para um aumento marginal significativo dos postos de trabalho no mundo como um todo. Segundo, os trabalhadores dos países ricos teriam também a possibilidade de migrar para outros países, onde há carência de mão-de-obra mais capacitada.Finalmente, ao se permitir que os trabalhadores migrem em busca de oportunidades de emprego, haverá necessariamente uma diminuição de trabalhadores disponíveis nos países de mão-de-obra mais barata. Essa diminuição da força de trabalho encarecerá a mão-de-obra nesses países, reduzindo os efeitos do chamado dumping social, e aumentando a competitividade aos países ricos. Esse aumento de competitividade seria necessariamente acompanhado de um aquecimento no mercado de trabalho.
Por fim, vale ressaltar que esse intercâmbio cultural seria não só salutar para a economia, como também contribuiria imensamente para um convívio mais harmônico entre os povos do planeta.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Sobre a verdade... (Pensamentos)
(1a edição)
Diálogo sobre a verdade:
P: Afinal, o que é a verdade?
R: A verdade é a resposta perfeita e inequívoca para qualquer pergunta.
P: Ela realmente existe?
R: Sim, ela de fato existe, posto que, para cada questionamento proposto, há sempre uma solução que supera todas as demais em perfeição.
P: Ela pode ser alcançada ou identificada?
R: Não, ela não está e nunca estará acessível ao intelecto humano.
P: Mas então, não podemos afirmar nada acerca de nenhum assunto, sob o risco de estarmos sendo levianos ou de induzirmos outrem ao erro?
R: Para vivermos, precisamos adotar diversas verdades, embora saibamos que elas são apenas aproximações, e não verdades absolutas. O intelecto humano orbita em torno da verdade, ora passando perto, ora nem tanto. Essas aproximações são geralmente suficientes para guiá-lo no caminho da vida. Eu as chamo de "verdades pragmáticas".
P: Poderia me dar um exemplo do que está me dizendo?
R: Para usar um cliché, não afirmávamos até pouco tempo que a terra era plana e estava no centro do universo? Isso não era tido como verdade? E não caiu por terra com Galileo Galilei? Veja que, nesse caso, a humanidade estava bem longe do que hoje consideramos verdade, ou seja, da verdade pragmática de hoje... Paralelamente, uma criança pode ter medo de sair de casa à noite por acreditar que há fantasmas no quintal. Esse temor é, aos olhos do homem moderno, uma fantasia, embora também isso seja uma verdade pragmática, posto que não sabemos ao certo se fantasmas existem ou não. Contudo, essa suposta fantasia, que para a criança é uma verdade pragmática, serve para que ela fique dentro de casa à noite e evite se expor a riscos e ao relento. A verdade (rsss) é que não sabemos quem está certo, e nunca saberemos...
Diálogo sobre a verdade:
P: Afinal, o que é a verdade?
R: A verdade é a resposta perfeita e inequívoca para qualquer pergunta.
P: Ela realmente existe?
R: Sim, ela de fato existe, posto que, para cada questionamento proposto, há sempre uma solução que supera todas as demais em perfeição.
P: Ela pode ser alcançada ou identificada?
R: Não, ela não está e nunca estará acessível ao intelecto humano.
P: Mas então, não podemos afirmar nada acerca de nenhum assunto, sob o risco de estarmos sendo levianos ou de induzirmos outrem ao erro?
R: Para vivermos, precisamos adotar diversas verdades, embora saibamos que elas são apenas aproximações, e não verdades absolutas. O intelecto humano orbita em torno da verdade, ora passando perto, ora nem tanto. Essas aproximações são geralmente suficientes para guiá-lo no caminho da vida. Eu as chamo de "verdades pragmáticas".
P: Poderia me dar um exemplo do que está me dizendo?
R: Para usar um cliché, não afirmávamos até pouco tempo que a terra era plana e estava no centro do universo? Isso não era tido como verdade? E não caiu por terra com Galileo Galilei? Veja que, nesse caso, a humanidade estava bem longe do que hoje consideramos verdade, ou seja, da verdade pragmática de hoje... Paralelamente, uma criança pode ter medo de sair de casa à noite por acreditar que há fantasmas no quintal. Esse temor é, aos olhos do homem moderno, uma fantasia, embora também isso seja uma verdade pragmática, posto que não sabemos ao certo se fantasmas existem ou não. Contudo, essa suposta fantasia, que para a criança é uma verdade pragmática, serve para que ela fique dentro de casa à noite e evite se expor a riscos e ao relento. A verdade (rsss) é que não sabemos quem está certo, e nunca saberemos...
Sobre a monogamia... (Pensamentos)
(1a edição)
O relacionamento amoroso tem dois componentes básicos, a saber: atração sexual e amizade.
Portanto, da mesma maneira que não podemos nos limitar a uma única relação de amizade, sob risco de a estragarmos pelo desgaste da convivência excessiva, a limitação a uma única relação amorosa também é perigosa e potencialmente prejudicial ao relacionamento.
Já no que tange ao aspecto sexual, a exclusividade chega a ser uma anormalidade mesmo, posto que contraria os instintos de ambos, homens e mulheres. Não fosse assim, a fidelidade nas relações seria regra, e não excessão.
De um modo geral, nós temos por hábito aceitar e perpetuar as convenções sociais que nos são impostas. Contudo, a primeira pergunta que procuro me fazer é se, ao contrariar determinada convenção, estarei prejudicando alguém, ou simplesmente rompendo um paradigma. E a mim parece que a monogamia hoje é apenas um paradigma social, mantido não pelos benefícios que traz, mas sim para alimentar a nossa necessiade de poder e o sentimento de posse de um parceiro sobre o outro.
Como não poderia deixar de ser, uma vez que nossos relacionamentos são exclusivos, experimentamos uma tendência fortíssima no sentido de moldar nossos parceiros. Ora, se não podemos diversificar nossos relacionamentos e assim satisfazer nossas necessiades, o natural é que tentemos moldar nossos parceiros a essas necessidades. Os resultados são geralmente decepcionamentes: conflito ou perda da naturalidade.
Com esse discurso não estou defendendo ou justificando a traição, mas questionando os benefícios e a própria viabilidade da monogamia.
O relacionamento amoroso tem dois componentes básicos, a saber: atração sexual e amizade.
Portanto, da mesma maneira que não podemos nos limitar a uma única relação de amizade, sob risco de a estragarmos pelo desgaste da convivência excessiva, a limitação a uma única relação amorosa também é perigosa e potencialmente prejudicial ao relacionamento.
Já no que tange ao aspecto sexual, a exclusividade chega a ser uma anormalidade mesmo, posto que contraria os instintos de ambos, homens e mulheres. Não fosse assim, a fidelidade nas relações seria regra, e não excessão.
De um modo geral, nós temos por hábito aceitar e perpetuar as convenções sociais que nos são impostas. Contudo, a primeira pergunta que procuro me fazer é se, ao contrariar determinada convenção, estarei prejudicando alguém, ou simplesmente rompendo um paradigma. E a mim parece que a monogamia hoje é apenas um paradigma social, mantido não pelos benefícios que traz, mas sim para alimentar a nossa necessiade de poder e o sentimento de posse de um parceiro sobre o outro.
Como não poderia deixar de ser, uma vez que nossos relacionamentos são exclusivos, experimentamos uma tendência fortíssima no sentido de moldar nossos parceiros. Ora, se não podemos diversificar nossos relacionamentos e assim satisfazer nossas necessiades, o natural é que tentemos moldar nossos parceiros a essas necessidades. Os resultados são geralmente decepcionamentes: conflito ou perda da naturalidade.
Com esse discurso não estou defendendo ou justificando a traição, mas questionando os benefícios e a própria viabilidade da monogamia.
domingo, 28 de dezembro de 2008
A Crise Mundial, o Padrão Dólar e a OMC. (Artigo)
(1a edição)
* Artigo publicado no site do colunista político Cláudio Humberto em 21/11/2008 http://www.claudiohumberto.com.br/artigos/index.php
Muito se tem falado recentemente sobre o papel do estado, através de seus Tesouros Nacionais e Bancos Centrais, na solução da crise financeira que assola o mundo. Certamente que a interferência estatal provisória, via compra de ações preferenciais de bancos e/ou outros mecanismos de injeção de liquidez no sistema, é benéfica e necessária para que se evite um cataclisma no sistema financeiro internacional. Mas será que o foco principal da discussão deveria mesmo ser o papel do estado como regulador e provedor emergencial de liquidez?
No que tange ao aspecto financeiro da crise, em parte sim, pois somente assim poderão ser expurgados do sistema os “créditos podres”, oriundos de empréstimos efetuados sem critérios, derivados do cenário de excesso de liquidez dos últimos anos, sem que os efeitos desse expurgo se acentuem e se prolonguem mais do que o necessário. Contudo, o aspecto econômico da questão não está, nem de longe, sendo objeto de análise por parte de políticos, economistas e demais agentes.
A questão central, e que parece estar passando despercebida, é o crescente endividamento externo americano, derivado do descasamento entre seu alto poder de consumo e sua baixa competitividade internacional, resultante principalmente do custo de sua mão-de-obra. Situação essa que se vê sancionada pelo constante influxo de poupança externa, ou seja, pelo depósito, nos EUA, dos saldos em conta corrente dos países emergentes e produtores de petróleo.
Esse ciclo vicioso, que vem propiciando, por muito tempo, a manutenção artificial do poder de compra da sociedade americana, gerou um grau excessivo de endividamento nas famílias daquele país, que se vêem agora impossibilitadas de saldar seus compromissos, uma vez que lhes faltam condições econômicas para tal, ou seja, renda. E o motivo é claro: os bancos americanos, face à baixa da taxa básica de juros (Fed funds), à falta de oportunidade de investimentos no mercado interno e nos demais países de primeiro mundo, todos com taxas de crescimento medíocres, e ao histórico negativo de risco soberano dos países emergentes, optaram por escoar sua liquidez financiando as famílias americanas, numa espiral de consumo que agora está sendo questionada.
Para que se possa contornar a situação, deve-se primeiramente amenizar os motivos que levam à desconfiança dos agentes econômicos quanto à conversibilidade das moedas dos países emergentes frente ao dólar. Essa desconfiança, além de gerar, nesses países, a necessidade de superávits crescentes em conta corrente, para que possam ter acesso a crédito e receber investimentos diretos, também ocasiona impedimentos a que esses saldos sejam revertidos em investimentos nos próprios emergentes, criando excedentes de liquidez no primeiro mundo. Dessa forma, a reversão do quadro atual passaria, necessariamente, pela quebra do padrão dólar, e pela criação de um novo padrão monetário, que aumentasse a confiança nas demais moedas. A abertura recente, pelo governo americano, de linhas de swap cambial com alguns países emergentes, entre eles o Brasil, é um sinal positivo, mas não é suficiente. Em segundo lugar, faz-se necessário atuar com algum mecanismo contra-cíclico, para evitar que a atual insolvência dos desenvolvidos coloque o mundo em recessão. Contudo, os pacotes fiscais, lançados ultimamente por diversos governos, também não serão suficientes a médio e longo prazos, pois não atacam a essência do problema.
Dessa forma, a solução para ambas as questões acima passa pela aceleração imediata das conversações de comércio multilateral via OMC. De um lado: (i) a queda dos subsídios agrícolas e das barreiras tarifárias e não-tarifárias em geral ativaria os setores exportadores, impedindo uma maior contração das economias; (ii) o maior acesso dos países desenvolvidos a investimentos nos setores de serviços dos emergentes tornaria possível o aumento da renda daquelas economias, mesmo que marginalmente baseada em remessas de lucros, além de servir de alternativa de investimento para os saldos em conta corrente dos emergentes lá depositados. De outro, a maior integração econômica e comercial mundial criariam o ambiente propício para um novo padrão monetário.
Em resumo, a derrubada de barreiras comerciais, além de criar um aumento real no PIB mundial e, consequentemente, na renda per capita e no bem estar dos seus habitantes, teria efeito contra-cíclico no atual momento e, por fim, propiciaria um maior grau de integração mundial, reduzindo os problemas decorrentes da conversibilidade das moedas. Resta saber até que ponto os governos de ambos os lados estarão dispostos a contrariar os interesses de alguns setores que, embora pouco competitivos, continuam politicamente influentes.
* Artigo publicado no site do colunista político Cláudio Humberto em 21/11/2008 http://www.claudiohumberto.com.br/artigos/index.php
Muito se tem falado recentemente sobre o papel do estado, através de seus Tesouros Nacionais e Bancos Centrais, na solução da crise financeira que assola o mundo. Certamente que a interferência estatal provisória, via compra de ações preferenciais de bancos e/ou outros mecanismos de injeção de liquidez no sistema, é benéfica e necessária para que se evite um cataclisma no sistema financeiro internacional. Mas será que o foco principal da discussão deveria mesmo ser o papel do estado como regulador e provedor emergencial de liquidez?
No que tange ao aspecto financeiro da crise, em parte sim, pois somente assim poderão ser expurgados do sistema os “créditos podres”, oriundos de empréstimos efetuados sem critérios, derivados do cenário de excesso de liquidez dos últimos anos, sem que os efeitos desse expurgo se acentuem e se prolonguem mais do que o necessário. Contudo, o aspecto econômico da questão não está, nem de longe, sendo objeto de análise por parte de políticos, economistas e demais agentes.
A questão central, e que parece estar passando despercebida, é o crescente endividamento externo americano, derivado do descasamento entre seu alto poder de consumo e sua baixa competitividade internacional, resultante principalmente do custo de sua mão-de-obra. Situação essa que se vê sancionada pelo constante influxo de poupança externa, ou seja, pelo depósito, nos EUA, dos saldos em conta corrente dos países emergentes e produtores de petróleo.
Esse ciclo vicioso, que vem propiciando, por muito tempo, a manutenção artificial do poder de compra da sociedade americana, gerou um grau excessivo de endividamento nas famílias daquele país, que se vêem agora impossibilitadas de saldar seus compromissos, uma vez que lhes faltam condições econômicas para tal, ou seja, renda. E o motivo é claro: os bancos americanos, face à baixa da taxa básica de juros (Fed funds), à falta de oportunidade de investimentos no mercado interno e nos demais países de primeiro mundo, todos com taxas de crescimento medíocres, e ao histórico negativo de risco soberano dos países emergentes, optaram por escoar sua liquidez financiando as famílias americanas, numa espiral de consumo que agora está sendo questionada.
Para que se possa contornar a situação, deve-se primeiramente amenizar os motivos que levam à desconfiança dos agentes econômicos quanto à conversibilidade das moedas dos países emergentes frente ao dólar. Essa desconfiança, além de gerar, nesses países, a necessidade de superávits crescentes em conta corrente, para que possam ter acesso a crédito e receber investimentos diretos, também ocasiona impedimentos a que esses saldos sejam revertidos em investimentos nos próprios emergentes, criando excedentes de liquidez no primeiro mundo. Dessa forma, a reversão do quadro atual passaria, necessariamente, pela quebra do padrão dólar, e pela criação de um novo padrão monetário, que aumentasse a confiança nas demais moedas. A abertura recente, pelo governo americano, de linhas de swap cambial com alguns países emergentes, entre eles o Brasil, é um sinal positivo, mas não é suficiente. Em segundo lugar, faz-se necessário atuar com algum mecanismo contra-cíclico, para evitar que a atual insolvência dos desenvolvidos coloque o mundo em recessão. Contudo, os pacotes fiscais, lançados ultimamente por diversos governos, também não serão suficientes a médio e longo prazos, pois não atacam a essência do problema.
Dessa forma, a solução para ambas as questões acima passa pela aceleração imediata das conversações de comércio multilateral via OMC. De um lado: (i) a queda dos subsídios agrícolas e das barreiras tarifárias e não-tarifárias em geral ativaria os setores exportadores, impedindo uma maior contração das economias; (ii) o maior acesso dos países desenvolvidos a investimentos nos setores de serviços dos emergentes tornaria possível o aumento da renda daquelas economias, mesmo que marginalmente baseada em remessas de lucros, além de servir de alternativa de investimento para os saldos em conta corrente dos emergentes lá depositados. De outro, a maior integração econômica e comercial mundial criariam o ambiente propício para um novo padrão monetário.
Em resumo, a derrubada de barreiras comerciais, além de criar um aumento real no PIB mundial e, consequentemente, na renda per capita e no bem estar dos seus habitantes, teria efeito contra-cíclico no atual momento e, por fim, propiciaria um maior grau de integração mundial, reduzindo os problemas decorrentes da conversibilidade das moedas. Resta saber até que ponto os governos de ambos os lados estarão dispostos a contrariar os interesses de alguns setores que, embora pouco competitivos, continuam politicamente influentes.
Sobre a felicidade... (Pensamentos)
(1a edição)
A felicidade é uma decisão da pessoa, e pouco tem a ver com os acontecimentos externos.
Nós geralmente buscamos nosso mal-estar no futuro e no passado, o que significa que sentir-se mal também é uma decisão e exige ação. Se nos concentrarmos no presente, a não ser que estejmos com dor ou em alguma situação de perigo imediato, a felicidade fica bem mais ao alcance.
A humanidade em geral dedica horas infindáveis ao estudo das mais diversas técnicas, artes e ciências... Contudo, pouco ou nenhum tempo é empregado no estudo da felicidade. Por se tratar de um processo bioquimico relacionado à liberação de neuro-transmissores, estou convencido de que pode ser exercitado.
Por ignorância do processo, estamos sempre aguardando que o estado de felicidade venha a ocorrer quando do atingimento de determinado objetivo, qualquer que seja ele... Quando atingimos esse objetivo, notamos que continuamos infelizes, e novamente estabelecemos outros objetivos que acreditamos nos levarão à felicidade, mas esse processo novamente falha. Temos de aprender que a felicidade está aqui e agora, e é desvinculada dos acontecimentos da vida, basta nós nos dispormos a senti-la.
A felicidade é uma decisão da pessoa, e pouco tem a ver com os acontecimentos externos.
Nós geralmente buscamos nosso mal-estar no futuro e no passado, o que significa que sentir-se mal também é uma decisão e exige ação. Se nos concentrarmos no presente, a não ser que estejmos com dor ou em alguma situação de perigo imediato, a felicidade fica bem mais ao alcance.
A humanidade em geral dedica horas infindáveis ao estudo das mais diversas técnicas, artes e ciências... Contudo, pouco ou nenhum tempo é empregado no estudo da felicidade. Por se tratar de um processo bioquimico relacionado à liberação de neuro-transmissores, estou convencido de que pode ser exercitado.
Por ignorância do processo, estamos sempre aguardando que o estado de felicidade venha a ocorrer quando do atingimento de determinado objetivo, qualquer que seja ele... Quando atingimos esse objetivo, notamos que continuamos infelizes, e novamente estabelecemos outros objetivos que acreditamos nos levarão à felicidade, mas esse processo novamente falha. Temos de aprender que a felicidade está aqui e agora, e é desvinculada dos acontecimentos da vida, basta nós nos dispormos a senti-la.
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