domingo, 28 de dezembro de 2008

A Crise Mundial, o Padrão Dólar e a OMC. (Artigo)

(1a edição)

* Artigo publicado no site do colunista político Cláudio Humberto em 21/11/2008 http://www.claudiohumberto.com.br/artigos/index.php

Muito se tem falado recentemente sobre o papel do estado, através de seus Tesouros Nacionais e Bancos Centrais, na solução da crise financeira que assola o mundo. Certamente que a interferência estatal provisória, via compra de ações preferenciais de bancos e/ou outros mecanismos de injeção de liquidez no sistema, é benéfica e necessária para que se evite um cataclisma no sistema financeiro internacional. Mas será que o foco principal da discussão deveria mesmo ser o papel do estado como regulador e provedor emergencial de liquidez?

No que tange ao aspecto financeiro da crise, em parte sim, pois somente assim poderão ser expurgados do sistema os “créditos podres”, oriundos de empréstimos efetuados sem critérios, derivados do cenário de excesso de liquidez dos últimos anos, sem que os efeitos desse expurgo se acentuem e se prolonguem mais do que o necessário. Contudo, o aspecto econômico da questão não está, nem de longe, sendo objeto de análise por parte de políticos, economistas e demais agentes.

A questão central, e que parece estar passando despercebida, é o crescente endividamento externo americano, derivado do descasamento entre seu alto poder de consumo e sua baixa competitividade internacional, resultante principalmente do custo de sua mão-de-obra. Situação essa que se vê sancionada pelo constante influxo de poupança externa, ou seja, pelo depósito, nos EUA, dos saldos em conta corrente dos países emergentes e produtores de petróleo.

Esse ciclo vicioso, que vem propiciando, por muito tempo, a manutenção artificial do poder de compra da sociedade americana, gerou um grau excessivo de endividamento nas famílias daquele país, que se vêem agora impossibilitadas de saldar seus compromissos, uma vez que lhes faltam condições econômicas para tal, ou seja, renda. E o motivo é claro: os bancos americanos, face à baixa da taxa básica de juros (Fed funds), à falta de oportunidade de investimentos no mercado interno e nos demais países de primeiro mundo, todos com taxas de crescimento medíocres, e ao histórico negativo de risco soberano dos países emergentes, optaram por escoar sua liquidez financiando as famílias americanas, numa espiral de consumo que agora está sendo questionada.

Para que se possa contornar a situação, deve-se primeiramente amenizar os motivos que levam à desconfiança dos agentes econômicos quanto à conversibilidade das moedas dos países emergentes frente ao dólar. Essa desconfiança, além de gerar, nesses países, a necessidade de superávits crescentes em conta corrente, para que possam ter acesso a crédito e receber investimentos diretos, também ocasiona impedimentos a que esses saldos sejam revertidos em investimentos nos próprios emergentes, criando excedentes de liquidez no primeiro mundo. Dessa forma, a reversão do quadro atual passaria, necessariamente, pela quebra do padrão dólar, e pela criação de um novo padrão monetário, que aumentasse a confiança nas demais moedas. A abertura recente, pelo governo americano, de linhas de swap cambial com alguns países emergentes, entre eles o Brasil, é um sinal positivo, mas não é suficiente. Em segundo lugar, faz-se necessário atuar com algum mecanismo contra-cíclico, para evitar que a atual insolvência dos desenvolvidos coloque o mundo em recessão. Contudo, os pacotes fiscais, lançados ultimamente por diversos governos, também não serão suficientes a médio e longo prazos, pois não atacam a essência do problema.

Dessa forma, a solução para ambas as questões acima passa pela aceleração imediata das conversações de comércio multilateral via OMC. De um lado: (i) a queda dos subsídios agrícolas e das barreiras tarifárias e não-tarifárias em geral ativaria os setores exportadores, impedindo uma maior contração das economias; (ii) o maior acesso dos países desenvolvidos a investimentos nos setores de serviços dos emergentes tornaria possível o aumento da renda daquelas economias, mesmo que marginalmente baseada em remessas de lucros, além de servir de alternativa de investimento para os saldos em conta corrente dos emergentes lá depositados. De outro, a maior integração econômica e comercial mundial criariam o ambiente propício para um novo padrão monetário.

Em resumo, a derrubada de barreiras comerciais, além de criar um aumento real no PIB mundial e, consequentemente, na renda per capita e no bem estar dos seus habitantes, teria efeito contra-cíclico no atual momento e, por fim, propiciaria um maior grau de integração mundial, reduzindo os problemas decorrentes da conversibilidade das moedas. Resta saber até que ponto os governos de ambos os lados estarão dispostos a contrariar os interesses de alguns setores que, embora pouco competitivos, continuam politicamente influentes.

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